domingo, 6 de julho de 2014

Meu passado UNIVER$AL


     Minha história na IURD começou a muito tempo atras, com apenas nove anos de idade. Por isso eu posso dizer que não fui por causa da propaganda: consiga emprego, ganhe dinheiro, fique curado, seja liberto ou por qualquer problema pessoal. Fui para lá porque minha mãe foi, e tudo que eu podia fazer era acompanhar.

     E como era de se esperar, a frequência a igreja virou minha rotina também, com direito a hinos emocionados, palmas animadas, longas orações, jejuns, envelopes cumpridos e muita fé para engolir tudo o que os pastores me empurravam goela abaixo! Minha mãe teve lá seus motivos para enveredar pela estrada cristã-evangélica-neo-pentecostal, eu por outro lado fui só mais uma criança doutrinada para ser o religioso padrão. E bem, ninguém pode dizer que não tentei ser.


     Diferentemente de outras religiões tradicionalistas, aquelas em que é só celebrar uma festa anual, ir ao templo de vez em quando ou rezar uma cartilha preparada, uma das características mais marcantes das igrejas evangélicas é o forte envolvimento que ela exige de seus membros. Por isso eu posso dizer que essa igreja influenciou-me em praticamente tudo! Minha visão de mundo, meu modo de vestir, o tipo de namorada que eu queria, o tipo de emprego, o tipo de vida. Pra tudo isso existia um padrão a ser seguido, uma normatização para todas as áreas da vida. Mas o grande problema não era apenas ser um crente padrão, era ser um crente padrão na IURD, pois ser “fiel da IURD" significa ser no mínimo um dizimista fiel, ofertante fiel, cumpridor de votos fiel, comprador da Folha Universal fiel, participante da Fogueira Santa fiel e fã do bispo Macedo fiel, nosso excelentíssimo Papa da Universal.

     Mas é claro, pouca gente lá dentro se dá conta disso, pois naquela igreja questionar é pecado, contrariar é pecado, e não dar dinheiro... aaahhhh, esse é o supremo pecado! Na IURD aprendemos que “é dando que se recebe”, por isso se queremos algo de Deus (e todo membro da igreja quer, e é sempre incentivado a querer mais) temos que dar algo em troca. Aprendemos também que “a fé sem obras é morta”, por isso não adianta dizermos que temos fé para alcançar as bênçãos divinas se não demonstramos através de atos. E aprendemos de brinde que esses atos são em 90% dos casos dar dinheiro para igreja.

     E assim eu fui seguindo, entre testemunhos de cura, prosperidade, restauração da família, libertação de demônios (que passaram a ser chamados de encostos) e tudo o mais que, independentemente de qualquer perseguição levantada contra nossa Santa Igreja demonstrava que Deus estava a frente desse trabalho, não é mesmo? Creio que o que me fez mudar de rumos foi...questionar, pensar sozinho; enfim, tudo aquilo que a igreja reprimia e proibia, mas que alguns tem coragem para fazer. Os votos eram um problema, fazia tempo que eu não engolia mais o argumento de “prova de fé”, que dirá quando elas vinham toda semana! Raios, eu mal acabava de cumprir um e o pastor já voltava com a cara lavada repetindo a mesma ladainha de novo! E o último que eu cumpri, ele não contava mais? Pronto, eu não aceitava mais os votos de fé, isso era um fato.

     O outro passo era notar as diferenças entre a "fé Universal” e a fé de outras igrejas evangélicas, e dependendo da igreja elas eram gritantes! Comecei a prestar mais atenção em outros programas evangélicos, na TV, no rádio, em revistas de escola dominical. Logo minha mente estava mudada demais para me enquadrar no perfil Universal, e eu só permanecia lá pelo fato daquele ser meu mundo, meu meio social. Quando finalmente tomei coragem para sair de lá (isso após duas tentativas frustradas de ir pra Batistas onde acabei voltando atras), passei o ano seguinte frequentando diferentes igrejas: Igreja Internacional da Graça de Deus, Comunidade Cristã Paz e Vida, Nova Assembléia de Deus e Igreja Evangélica Missionária Maranata. Isso sem falar em muitos programas de TV, rádio, revistas e estudos pela internet. Resultado: através da experiência e de pesquisa ficou claro para mim que cada igreja pinta Jesus de uma cor, e que não importa o quanto eu procura-se pela igreja certa, todas se diziam as certas e se mostravam como a “verdadeira igreja de Cristo na terra”, aquela que prega o genuíno evangelho! Isso foi meio difícil de digerir, mas essa era a dura realidade! 

     Depois disso percebi que deveria buscar por mim mesmo meu “certo e errado” e posso dizer que a sensação de liberdade que isso traz supera e muito a liberdade que a IURD prometia. Submissão por medo, obediência cega, auto anulação, esse era o preço cobrado para ter algum conforto e esperança. Sei que nesse momento alguns podem se levantar em defesa da IURD com o argumento de que milhares de pessoas largaram os vícios ou a criminalidade, maridos deixaram de bater nas esposas, suicidas em potencial encontraram sentido para continuar vivendo e que famílias desestruturadas puderam fortalecer seus laços através do trabalho da Universal. Eu não nego isso, embora se esse crédito deve ser atribuído a IURD, a Deus, a fé das pessoas ou a questões puramente psicológicas e sociológicas vai depender da visão pessoal de cada um. 

     Algumas instituições são como laranjas, com os indivíduos mais bem intencionados e desinformados nas camadas de fora, apenas para proteger e sustentar as verdadeiras mentes idealizadoras do comércio da fé na camada de dentro. Algumas pessoas não tem condições de sair de lá e eu seria a última pessoa a tentar tirá-las; existem passos que devem ser dados por conta própria, e cada pessoa tem seu próprio tempo. Com alguma sorte algumas delas possam encontrar uma igreja menos comercial, como aconteceu com minha própria mãe após muitos anos dentro daquele lugar. Esse é um grande passo, talvez o maior que a maioria consiga dar.  

     A questão é: por que me contentar com um passo quando posso correr? E por que  correr quando se pode voar? Eu hoje busco o meu próprio caminho, e acho que cada um deve buscar o seu, aquilo que faz sentido para si mesmo. Mesmo que no momento, isso signifique permanecer lá.

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